14/03/2016

Explorando a cidade de Tiradentes: pedindo carona dentro da cidade e acampando ao lado de uma capela no centro

Acabei de acordar sozinho numa cama de casal, numa casa vazia com uma vista bonita da Serra de São José. Estou em Prados, MG. Os últimos 4 dias foram cheios de pequenos acontecimentos não-planejados. Esses acontecimentos foram se conectando, e até o momento eles se resumem em dormir em um camping pago, deixar meu notebook e roupas com pessoas desconhecidas, acampar no meio de uma cidade(!) em uma noite e em ganhar uma carona até uma cidade vizinha pra na outra noite dormir sozinho nesse lugar onde acordei hoje.

Tudo começa em Belo Horizonte, MG

Dia 10 de Março eu estava acordando em Belo Horizonte, e logo preparava minha mochila pra partir. Depois de passar umas 3 semanas em BH, finalmente meu passaporte e RG novos saíram e estou livre pra pegar estrada rumo ao que o acaso me trouxer novamente. 3 caronas e eu estava descendo em Tiradentes, MG, pela primeira vez na vida.

As caronas do caminho interessam, né? 

A primeira foi com um casal que era um doce, e corruptos também. O homem demonstrou chateação ao ver árvores sendo cortadas por um grande trecho da rodovia, e a mulher foi imediatamente gentil me oferecendo da sua garrafa de água ao passarmos por uma nascente e eu brincar que estava com cede. A parte corrupta foi ao passarmos por um pedágio, quando eles juntos pediram a um caminhoneiro que dirigia um caminhão similar pra guardar o recibo do valor que pagaria ao pedágio. A intenção deles era pedir o reembolso à empresa pra qual traziam a carga do valor que estava no recibo do outro caminhoneiro, já que o do valor daquele recibo era maior que o valor que eles pagaram. Assim eles “lucrariam” uns reais a mais.

A segunda carona foi com um caminhoneiro que a princípio se comportou meio estranho. Enquanto eu ainda entrava no caminhão, ele me apressou dizendo “Vamos que já estou atrasado!”. Em seguida, enquanto eu mexia no meu celular, ele achou que eu estava mandando uma mensagem pra alguém e se intrigou - “Pra quem você mandou aquela mensagem?!”. Olhei pra cara dele sem entender a pergunta (porque nem tinha como eu estar mandando mensagem a ninguém se não tenho um chip no meu celular), e mostrei pra ele o que estava fazendo: olhando um mapa. Posteriormente ele me contou que estava assim suspeito por causa da clássica história de a pessoa pegar uma carona, enviar uma mensagem pros seus comparsas informando características do caminhão que estava, e armarem uma emboscada pra roubarem a carga alguns quilômetros à frente. Mas, felizmente eu não estava ali pra roubar a carga dele e ele por fim me deu uma carona até um ponto de ônibus dentro da cidade de São João del Rei, de onde ele me disse pra pegar um transporte baratinho até Tiradentes.

A terceira carona foi com um boliviano(!). Lógico que eu não ia pegar um ônibus se eu podia pedir carona, e essa carona parou antes mesmo de qualquer ônibus vir. O imigrante boliviano mora no Brasil há 25 anos, e achei interessante o fato de eu ter que repetir alguma frase ou outra pra ele, porque ele não havia me entendido. Entendo que eu atualmente devo ter um sotaque bem diferente devido ao fato de eu conviver com pessoas com sotaques diferentes e por eu ter vivido fora do país um tempo também, mas como ele vive no Brasil há 25 anos eu fiquei surpreso dele não entender tudo de primeira ainda. Mas enfim, ele dirigia um carro bem velho com teto solar que parecia ter trago da Bolívia. Contei pra ele que já estive viajando pelo país dele também, e tentei ouvir bastante sobre sua vida no Brasil nesses poucos minutos que eu tive de carona com ele até chegar a Tiradentes. Ele disse que adorou quando chegou ao Brasil, porque era jovem e as garotas “adoravam o gringo”. 


A primeira carona saindo de Belo Horizonte, MG.

Primeiro dia em Tiradentes e o camping pago

Eu estava chegando em Tiradentes sem saber onde exatamente era o camping e sem ter como me comunicar com o amigo que eu precisava encontrar. Mas por sorte eu identifiquei no mapa o lugar onde havia visto que era o camping onde ele estava acampado. Como o camping parecia ser bem na entrada da cidade, mostrei ao boliviano onde queria descer. Desci, mas não sabia se o camping era por ali mesmo ou eu tinha me enganado, então fui a um grupo de estudantes que esperava um ônibus e pedi se alguém podia criar uma rede Wifi pra compartilhar suas 3G comigo. Uma garota se prontificou e criou a rede, mas assim que o fez o ônibus veio e a rede se foi. Mas por sorte o camping era por ali mesmo e o encontrei.


No camping tinha Wifi, então me comuniquei com o Raí, meu amigo cuja barraca estava montada ali ao lado da minha mas estava pela cidade. Mais tarde saí pra dar uma volta e tentar encontrar com ele, mas no caminho encontrei com ele já voltando pro camping. Ok, fui dar uma volta sozinho pela cidade mesmo assim.
Primeiro dia ficamos num camping pago em Tiradentes, MG.

Uma voltinha por Tiradentes e o bate-papo numa lanchonete

Saí perambulando pela cidade de Tiradentes, tanto pelas ruas mais movimentadas e claras do centro quanto as ruas mais vazias e escuras. Até que em uma dessas ruazinhas mais vazias, encontrei uma lanchonete sem freguês algum. Resolvi olhar as opçōes de salgadinhos que vendiam, e quando a dona veio me explicar os valores e sabores, gostei do jeito como ela me explicava e resolvi assentar por ali pra bater um papo, usando o salgadinho como desculpa. Havia um pré-adolescente lá com ela, e foi com ele que eu acabei passando um tempo conversando. “Você conhece algum lugar onde eu possa acampar de graça?”, perguntei. E o garoto me respondeu a Serra de São José, onde já viu gente acampada quando foi lá. E em meio aos seus levantamentos de sobrancelhas, mudanças no tom de voz e outras expressōes faciais (linguagem corporal da galera nessa idade é tão legal!) ele foi me contando que foi lá nessa serra uma vez pra ver a vista que é muito massa, as cachoeiras bonitas e tudo mais. Hunnn, tava me soando uma opção massa de onde acampar. Mas devido ao clima de chuva, acabei desconsiderando essa opção.

Terminei meu lanche e segui minha caminhada conhecendo cidade. Voltei ao camping e passei mais tempo dentro da minha barraca do quê socializando com meu amigo e a galera que estava por lá. 20 reais por noite que a gente dorme aqui, pra mim não fazia sentido algum. Pra outros viajantes - ou tipos de viagem - esse valor deve ser a média ou até barato, mas não pra mim hoje. Não pra o tipo de viajante que eu sou atualmente, sem renda e sem achar necessário maiores infraestruturas pra passar uns dias acampado. 


A lanchonete da Sandra, pessoa que não conhecíamos e com quem pensamos deixar todas as nossas coisas.


Segundo dia em Tiradentes e a ideia de acampar grátis pela cidade

No dia seguinte fui pra cidade com o Raí e o Mateus, um amigo dele que veio aqui vender uns ímãs e umas bijuterias que ele mesmo fez. Aliás, acredito que seja por causa do Mateus que tanto o Raí quanto eu estamos aqui em Tiradentes hoje. Esse final de semana está acontecendo o Festival de Fotografia de Tiradentes, e o Mateus resolver vir pra participar do festival e pra aproveitar e vendar algumas coisas. Acredito que ele tenha convidado o Raí pra vir com ele, e então o Raí me convidou. Todos curtimos a ideia e agora estamos aqui.

Até o final desse meu primeiro dia com eles em Tiradentes, revelei pra eles minha inquietude com o fato de estar vendo 20 reais indo embora diariamente pra poder me acampar. Falei que na noite passada havia andado explorando a cidade e buscando algum lugar gratuito onde acampar. E que tinha essa ideia de talvez pedir à dona da lanchonete onde lanchei na noite anterior, se eu não podia deixar umas coisas lá durante o dia porque minha mochila estava bem pesada. Raí e Mateus acabaram concordando curtindo a ideia e resolveram que devíamos todos buscar algum outro lugar pra acampar. 

Fui com o Raí até a lanchonete, e a mulher estava lá. Sandra, é o nome dela. Apresentei o Raí e comecei a falar da nossa ideia de acampar em algum lugar pela cidade. Mencionei que uma desvantagem de acampar na rua em relação ao camping é que teríamos que ficar carregando nossas mochilas pesadas durante o dia nas nossas caminhadas pela cidade. Ela nem me esperou pedir, e logo ofereceu “Vocês podem deixar a mochila aqui durante o dia se quiserem, eu geralmente abro às 13h e fecho às 22h. Vocês podem pegar ou deixar suas mochilas aqui nesse período, sem problema.”. :)

Apesar da empolgação de todos em economizar todo esse dinheiro (60reais por noite se contarmos nós três! dá pra ficar bêbado e comer coisa boa com essa grana toda por dia! rsrs), a gente acabou deixando pra sair do camping no dia seguinte, sábado.

Terceiro dia em Tiradentes e saímos pela cidade carregando nossas tralhas

Então era sábado de festival, e descemos todos pro centro carregando toda nossa tralha. A mochila mais pesada parecia ser a do Mateus, que levava bijuterias e provavelmente uns alicates e outras ferramentas também. Deixamos nossas coisas todas lá na lanchonete, com toda a hospitalidade da Sandra (que vive em Tiradentes há 2 anos) e o garoto com quem eu havia batido papo e pego todas aquelas dicas já na minha primeira noite na cidade.

Enquanto eles não abriam a lanchonete, nós ficamos sentados com nossas coisas na rua esperando até que eles aparecessem.

Mateus e Raí acabaram decidindo virar aquela noite em festas, já que na noite anterior eles preferiram ficar no camping. Brasileiros e suas espontaneidades(!). Devido ao fato de que na noite anterior eles também demonstraram empolgação em ir acampar pela cidade mas acabaram adiando para o dia seguinte, eu comecei a refletir sobre esse hábito tão comum no Brasil. Brasileiros parecem ter uma certa ideia de “coletividade” ao fazerem suas decisōes antecipadamente. Tendem a pensar mais na(s) outra(s) pessoa(s) do quê neles mesmos. Nesse caso, eles talvez tenham pensado a princípio mais na vantagem que seria pra todos nós se deixássemos de pagar 20 reais por noite pra acampar e acampássemos de graça. Mas posteriormente, na hora de irmos de fato fazer o que planejamos juntos, cada um já pensou por si. Provavelmente se perguntaram “Eu quero mesmo acampar numa noite de sábado de festival na cidade quando várias festas acontecem?”, e então escolheram por si sós que iriam à festa em vez de seguir o que havíamos planejado. (…) Não quero muito me estender nisso, porque devido ao fato de estar escrevendo em português o meu público alvo desse texto acaba sendo brasileiros - que já sabem muito bem da cultura daqui e portanto eu há necessidade de eu “ensinar o padre a rezar a missa”. Foram apenas umas reflexōes que vieram à minha cabeça: espontaneidade, falsas ideias de coletivo e o posicionamento de foda-se o que eu planejei com outras pessoas antes, o que importa é a minha vontade na hora “h”. 

Tomei uma garrafa de Catuaba com os meninos e uns amigos deles na praça de Tiradentes, até que desse a hora deles irem buscar alguma festa. Então todos nos despedimos, e caminhei até a Capela de São Francisco de Paula, no alto de um morro ao lado da rodoviária, no centro de Tiradentes. O Raí havia lembrado de ter visto um gramado grande ao redor dessa igreja quando estávamos buscando onde acampar pela cidade no dia anterior. Montei minha barraca por lá, era por volta da 1h da madrugada. Não tive medo ou receio algum de ser assaltado ou qualquer coisa relativa a isso, provavelmente devido ao fato de eu não ter visto nada que pudesse me deixar receoso durante minhas andanças pela cidade. Eu talvez tivesse apenas um pouco de receio em relação à dormir e ser acordado por alguém me pedindo pra me retirar dali porque provavelmente aquele não era um lugar onde é permitido acampar. Mas de qualquer maneira, fechei a porta da barraca, deitei e dormi quase que de imediato. :)

O lugar era tão tranquilo que eu fui acordar só às 9 da manhã. Tive a sorte de não ter amanhecido com muito sol também, se não o sol me acordaria bem cedo fazendo minha barraca de forno. Ao sair da barraca, notei que a capela estava aberta! Haviam alguns turistas por ali já, e um vigia da capela estava lá sentado à porta. Logo recolhi minha barraca e apesar de eu geralmente não ter interesse algum em conhecer igrejas nem capelas, acabei achando que seria legal conhecer essa. Dei um oi pro vigia que me viu acampando ali, e meu oi foi retribuído com outro oi e um sorriso. Dentro da capela havia algo na parede que falava um pouco da capela e sua história. E li isso “A Congregração desta capela dedica-se em tempo integral ao conforto espiritual e material dos pobres e idosos necessitados em Tiradentes”. HA!

Local público onde acampei sozinho no centro de Tiradentes: Capela São Francisco de Paulo de um lado.

Do outro lado da barraca, a vista era a Serra de São José.


Quarto dia em Tiradentes: caronas dentro da cidade e carona pra fora da cidade

Pela manhã de domingo fiquei caminhando por Tiradentes. Tentei encontrar ou a lanchonete aberta ou os meninos lá pelo centro, mas pela 1h da tarde ainda não havia obtido nenhum sucesso e decidi caminhar por outros lados da cidade. Acabei encontrando onde fica a estação ferroviária de Tiradentes. E me lembrei ter ouvido que havia um camping por aqueles lados da cidade. Achei uma placa dizendo que o camping estava a 2km. Resolvi ir lá, apesar de estar carregando minha mochila com a barraca, saco de dormir e algumas outras coisas dentro. O primeiro carro que vi vindo tive a ideia de levantar o polegar, claro. Porquê caminhar 2km se esse primeiro carro poderia parar pra mim e me levar até lá? E o carro parou.

A mulher que me deu carona me deixou na porta do camping. Caminhei pelo camping e encontrei um amigo do Raí e Mateus que eu havia conhecido na noite anterior. Passei um tempinho lá com eles, até que o dono do camping estava vindo pro centro e deu uma carona pra nós todos na caçamba de uma pickup. 

Almoçamos num restaurante pelo centro, a comida tinha uma cara muito boa e o prato eram só 8 reais. Fomos pra praça, encontramos Raí e Mateus que haviam conseguido uma carona pra voltarem pra Belo Horizonte. Que sorte a deles. :)

Nos despedimos, e fui pra lanchonete aproveitar a Wifi de lá pra poder pesquisar umas coisas na internet e decidir o que fazer, pra onde ir, quando ir, etc. Eis que um cara comentou em um dos meus posts contando que estava em Tiradentes. Disse que mora em Prados, e começamos a nos falar. Então me convidou pra vir a Prados no dia seguinte. Sugeri que eu podia ir naquele dia mesmo já que meu plano até então era só de acampar ao lado da capela essa noite de novo. Ele então pediu pra eu marcar um local, que ele viria me buscar(!).

Uma carona pra cidade vizinha: Prados, MG

Cláudio é o nome dele. Ele me trouxe até uma casa que tem em Prados, me levou a uma padaria, me comprou algumas coisas pra comer e me deixou 20 reais pra eu almoçar em um restaurante próximo à casa amanhã, já que ele não dormirá aqui(!). Achei engraçado ele me perguntar se eu me importaria de passar a noite sozinho na casa, eu ri e o lembrei “Ontem a noite eu tava dormindo sozinho dentro de uma barraca no centro da cidade, tô acostumado.” rsrs

E foi assim que acordei essa manhã: sozinho numa casa sem internet, sem 3G, sem telefone. Se eu visse fantasmas, se um OVNI aparecesse no quintal querendo me raptar, não teria como eu recorrer à ninguém se não fossem vizinhos. Aliás falando em vizinhos, antes do Cláudio partir ele também bateu na casa de um vizinho que mora há umas 4 casas de distância e pediu a senha da Wifi dele pra que eu pudesse usá-la hoje. E é assim que eu consegui estar aqui agora conectado postando essa história pra vocês no mundo das internets!

Quais são meus planos pro futuro, agora? Pesquisar se há algo pra se fazer em Prados ainda hoje ou amanhã, e verificar onde pedir carona pra chegar até São Thomé das Letras, onde preciso encontrar um camping pra no mínimo umas 20 pessoas pro Encontro de Caroneiros de Beira de Estrada que vai acontecer lá no próximo sábado. :)


Yey! Acordei com todos os meus rins no lugar.

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